Arquivo mensal: novembro 2012

Paisagem íntima

íntimo #1

A cada dia de que passa me sinto mais intimamente conectado à Setúbal. Não, não numa sensação de pertencimento e encontro, mais, na verdade, uma conexão de amor íntimo. E percebi ao ver essas duas fotos banais que tanto me lembraram as minhas paisagens da saudade.

íntimo #2

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#4 meditação

Uma coisa da qual eu não cansei de falar ainda é de toda a intensidade que rege, ou ao menos acompanha, praticamente cada passo desse intercâmbio (e gosto de acreditar que de todos). Não me canso de falar porque não me canso de tanta insanidade, posso resumir assim a questão. Mas, como ninguém é de ferro, por vezes todo esse turbilhão acaba exigindo muito de nós, do físico, do psicológico, do emocional. Tem dias que precisamos de uma meditação profunda, de um contraponto diametralmente oposto a tudo o que eu rapidamente descrevi: e no meu primeiro dia de meditação em Portugal, resolvi ir à Fátima.
Ir para lá teve motivos religiosos ao mesmo tempo que também não teve. Não sou um católico fervoroso-e-praticante. Não sou dado à peregrinações. Não sou dado à meditações e fugas do movimento e barulho para o silêncio. Apesar de tudo isso, estive lá e rezei por você (como dizem os postais).
Entre os milhares de turistas, o sol forte do começo de outubro, o céu limpo e irreal, as músicas pouco relacionadas ao ambiente, à grandiosidade do espaço comparado ao diminuto tamanho de alguém qualquer, fiquei buscando meu momento de meditação, meu momento de digestão de tantas coisas que até agora não sei explicar. E talvez essa condição tão fatigante de busca pelo sentido me faça, mesmo hoje, ter pouco a dizer e fotos pouco coerentes a mostrar.

Olhando agora, as imagens me parecem desconexas e não sei bem o porquê. É como se cada uma tivesse me mostrando um detalhe importante de toda essa viagem – que ainda nem terminou, que mal chegou à sua metade.
Fugindo um pouco dos (des)caminhos dos meus pensamentos, descrevo assim Fátima: uma cidade que não sei quem são os moradores, pois entre a rodoviária encardida e o (S)santuário imensamente magnífico, só vi as reformas nas ruas e calçadas, e as infinitas lojas e imagens. Também vi hotéis e restaurantes, e por conseguinte seus fregueses. E caminhando calmamente de repente, como num leve tropeço, se entra no (S)santuário. Daí não acho que posso descrever, porque como todo e qualquer monumento ou cidade ou pessoa, corro o risco de falar algo que não é. Deixo para as imagens, então, esse trabalho fatídico de descrição.

Tentei escrever diversas coisas engrandecedoras para completar o post e como tenho um pouco mais o que fazer, vou conectar as ideias dispersas – veremos o que sairá: hoje é bom lembrar que, naquele momento, pela primeira vez, desde que eu havia desembarcado do avião, estava sozinho. Apenas eu, meus pensamentos, meus desejos, meu profundo silêncio.
As horas no autocarro, lendo um livro qualquer ou um guia de viagem ou um jogo de paciência ou as imagens rápidas e rurais do outro lado da janela, tudo inédito, sob o sol quente e forte, de um final de verão, de outubro. Claro que é um exagero dizer que uma viagem de menos de um dia é uma grande experiência sozinho, e acho que eu próprio não conseguiria entender se não tivesse vivido em tamanha proporção aquele sentimento (na realidade a oposição total).

O que eu quero dizer com tudo isso, o que realmente quero registrar, é que a grande lição do dia foi identificar dois tempos dessa experiência das relações em um intercâmbio: conhecer novas pessoas, estabelecer novas amizades, criar vínculos com pessoas que normalmente você não teria acesso e ficar junto, de um lado, e usufruir da solidão, do silêncio e do auto-conhecimento. 
E essa foi a experiência de, um dia, pegar a mochila, o ipod e partir com a solidão no bolso para Fátima, completamente cheio de silêncio para uma peregrinação de um dia.