Arquivo mensal: janeiro 2015

Misturamos tudo
é fato
Aproveitamos o dia de Pentecostes pra pendurar os ovos de Páscoa de São Bartolomeu na árvore de Natal do Catorze de Julho
Teve um mau efeito
Os ovos estavam vermelhos demais
A pomba se safou
Misturamos tudo
é fato
O dia e o ano o desejo e o remorso e o leite e o café
No mês de Maria que parecia o mais belo colocamos a Sexta-feira Treze e o Grande Domingo dos Camelos o dia da morte de Luís XVI o Ano terrível a Hora do amante e cinco minutos da pausa pro almoço.
E somamos sem rima nem razão nem ruína nem mansão sem fábrica e sem prisão a grande semana de quarenta horas e aquela das quatro quintas-feiras
E um minuto de baderna
por favor
Perdemos nosso tempo
é fato
Um minuto de surto de alegria de canções pra rir e ruídos e longas noites pra dormirmos no inverno com as horas suplementares pra sonharmos que é verão e longos dias pra fazermos amor e rios pra nos banhar e grandes sóis pra nos secarem
Perdemos nosso tempo
é fato
mas era um mau tempo
Avançamos o pêndulo
Arrancamos as folhas mortas do calendário
Mas não tocamos as campainhas
é fato
Só o que fizemos foi escorregar pelo corrimão das escadas
Falamos de jardins suspensos
vocês já vinham em fortalezas voadoras desbastar a cidade mais rápido do que um pequeno barbeiro desbasta a própria vila num domingo de manhã
Ruínas em vinte e quatro horas
o próprio tintureiro morre
Como você quer que se fique de luto

Confissão pública (Loteria crítica) [1955], de Jacques Prévert.
Tradução de Adriano Scandolara, do ótimo e mais que recomendado blog escamandro.

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passagens

07

Se passagens marcam as mudanças, também delimitam as permanências. No entanto, temos os desejos, com os quais desenhamos essas escolhas.

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A inspiração deste post tem nome completo e endereço: Bárbara Carneiro. beach please.