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diário de um intercâmbio na europa

Última foto

Mais de um mês longe daqui. Quase um mês desde que voltei ao Brasil. De qualquer forma, ainda faltam as palavras para falar de tudo. Por enquanto deixo a fotografia final, sem nada de especial para os desinteressados e ocupados, com muitas lembranças – esse céu, a brisa fria. Que o caminho então seja do fim ao começo.

ultima foto

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#5 retrospectiva

Não me lembro a última vez que fiz ou esbocei uma retrospectiva, mas esse ano, na solidão de um quarto em Setúbal, fiquei tentado em refletir e escrever um pouco sobre o grande (enorme) ano que se passou. Claro que, seguindo a própria razão de ser desse blog, acompanham as palavras doze fotografias representativas desse ano. Então vamos lá.
2012, definitivamente, foi um dos melhores anos da minha vida, isso eu posso dizer com uma certeza certeira. Mas é preciso usar algumas palavras específicas, ou melhor, é necessário ter cuidado para escolhê-las, senão corro o risco de ser abrangente e não registrar nada, apenas usar palavras mais banais e comuns para escrever algo que não pertence a ninguém.
Esse ano que mal terminou foi o ano das surpresas, dos suspenses, das atitudes, dos ventos novos e de uma agitação intensa. Comecei aprendendo uma nova língua, que me encantou e me fez me apaixonar novamente pela minha própria língua. Passei por grandes momentos de provação profissional (fosse em uma escola ou em outra), aprendendo muito com as crianças lindas (e também com os professores e outros profissionais) que tive o prazer de conviver. Me apaixonei pela literatura infantil, por suas possibilidades infinitas e por sua complexa e tocante simplicidade – e de novo aprendi a ler e sentir.
E daí eu tive a certeza que, apesar de todas as dificuldades, contratempos e durezas, eu escolhi o caminho “certo” (entre aspas, porque nunca sabemos o que há porvir). E digo isso com propriedade pois, quando tudo estava ótimo, tentei o inesperado e acabei vindo parar em outro país, do outro lado do Oceano Atlântico. Não antes de passar por uma cirurgia, aprender mais sobre mim, brigar, sentir raiva, ficar distante de uma amizade forte e importante – e sempre trabalhando muito, estudando muito e me divertindo muito.
Revi minhas prioridades, peguei minha câmera e fotografei mais, fiz nascer um novo blog, vi como meus amigos são um barato e senti o carinho de um monte deles durante todo esse processo. Passei um por um mês de ansiedade comedida e também por tardes lindas com novas pessoas lindas. Acompanhei os sucessos dos meus melhores amigos, em suas escolhas acertadas e em suas casas novas. E quando nada parecia mais me surpreender, pisei em solo português e conheci uma gente surpreendente. Vivi semanas tão intensas que pareceram meses, amizades surgiram do nada e foram tantas as risadas e jogos de cartas que mal posso contar.
Andei um pouco por essa Europa, fiquei por semanas com a sensação de que tudo era um sonho e daí fui conhecer lugares que igualmente pareciam (e se parecem, na verdade) com sonhos! Tentei conciliar os estudos, as viagens, as noites longas, as amizades, a distância e os amores. Conheci tanta gente como há muito tempo eu não conhecia e, claro, caí de amores por algumas e de ódio por outras – o bom é que algumas vezes minha opinião mudou, e quem me conhece sabe como isso é difícil. Me apaixonei por Setúbal e não sei se vou conseguir viver em São Paulo de novo, mas tudo bem, pelo menos há as pessoas macias lá. E tudo isso pra estar aqui, hoje.
E fico muito feliz em saber que de fato aprendi e mudei, sou e não sou parecido com o Shin que existia no dia primeiro de janeiro de 2012. E que bom! Agora é só aguardar pelas novas aventuras que 2013 promete.
Feliz ano novo para todos – e muita força para viver nesse mundo!

#4 meditação

Uma coisa da qual eu não cansei de falar ainda é de toda a intensidade que rege, ou ao menos acompanha, praticamente cada passo desse intercâmbio (e gosto de acreditar que de todos). Não me canso de falar porque não me canso de tanta insanidade, posso resumir assim a questão. Mas, como ninguém é de ferro, por vezes todo esse turbilhão acaba exigindo muito de nós, do físico, do psicológico, do emocional. Tem dias que precisamos de uma meditação profunda, de um contraponto diametralmente oposto a tudo o que eu rapidamente descrevi: e no meu primeiro dia de meditação em Portugal, resolvi ir à Fátima.
Ir para lá teve motivos religiosos ao mesmo tempo que também não teve. Não sou um católico fervoroso-e-praticante. Não sou dado à peregrinações. Não sou dado à meditações e fugas do movimento e barulho para o silêncio. Apesar de tudo isso, estive lá e rezei por você (como dizem os postais).
Entre os milhares de turistas, o sol forte do começo de outubro, o céu limpo e irreal, as músicas pouco relacionadas ao ambiente, à grandiosidade do espaço comparado ao diminuto tamanho de alguém qualquer, fiquei buscando meu momento de meditação, meu momento de digestão de tantas coisas que até agora não sei explicar. E talvez essa condição tão fatigante de busca pelo sentido me faça, mesmo hoje, ter pouco a dizer e fotos pouco coerentes a mostrar.

Olhando agora, as imagens me parecem desconexas e não sei bem o porquê. É como se cada uma tivesse me mostrando um detalhe importante de toda essa viagem – que ainda nem terminou, que mal chegou à sua metade.
Fugindo um pouco dos (des)caminhos dos meus pensamentos, descrevo assim Fátima: uma cidade que não sei quem são os moradores, pois entre a rodoviária encardida e o (S)santuário imensamente magnífico, só vi as reformas nas ruas e calçadas, e as infinitas lojas e imagens. Também vi hotéis e restaurantes, e por conseguinte seus fregueses. E caminhando calmamente de repente, como num leve tropeço, se entra no (S)santuário. Daí não acho que posso descrever, porque como todo e qualquer monumento ou cidade ou pessoa, corro o risco de falar algo que não é. Deixo para as imagens, então, esse trabalho fatídico de descrição.

Tentei escrever diversas coisas engrandecedoras para completar o post e como tenho um pouco mais o que fazer, vou conectar as ideias dispersas – veremos o que sairá: hoje é bom lembrar que, naquele momento, pela primeira vez, desde que eu havia desembarcado do avião, estava sozinho. Apenas eu, meus pensamentos, meus desejos, meu profundo silêncio.
As horas no autocarro, lendo um livro qualquer ou um guia de viagem ou um jogo de paciência ou as imagens rápidas e rurais do outro lado da janela, tudo inédito, sob o sol quente e forte, de um final de verão, de outubro. Claro que é um exagero dizer que uma viagem de menos de um dia é uma grande experiência sozinho, e acho que eu próprio não conseguiria entender se não tivesse vivido em tamanha proporção aquele sentimento (na realidade a oposição total).

O que eu quero dizer com tudo isso, o que realmente quero registrar, é que a grande lição do dia foi identificar dois tempos dessa experiência das relações em um intercâmbio: conhecer novas pessoas, estabelecer novas amizades, criar vínculos com pessoas que normalmente você não teria acesso e ficar junto, de um lado, e usufruir da solidão, do silêncio e do auto-conhecimento. 
E essa foi a experiência de, um dia, pegar a mochila, o ipod e partir com a solidão no bolso para Fátima, completamente cheio de silêncio para uma peregrinação de um dia.