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#4 meditação

Uma coisa da qual eu não cansei de falar ainda é de toda a intensidade que rege, ou ao menos acompanha, praticamente cada passo desse intercâmbio (e gosto de acreditar que de todos). Não me canso de falar porque não me canso de tanta insanidade, posso resumir assim a questão. Mas, como ninguém é de ferro, por vezes todo esse turbilhão acaba exigindo muito de nós, do físico, do psicológico, do emocional. Tem dias que precisamos de uma meditação profunda, de um contraponto diametralmente oposto a tudo o que eu rapidamente descrevi: e no meu primeiro dia de meditação em Portugal, resolvi ir à Fátima.
Ir para lá teve motivos religiosos ao mesmo tempo que também não teve. Não sou um católico fervoroso-e-praticante. Não sou dado à peregrinações. Não sou dado à meditações e fugas do movimento e barulho para o silêncio. Apesar de tudo isso, estive lá e rezei por você (como dizem os postais).
Entre os milhares de turistas, o sol forte do começo de outubro, o céu limpo e irreal, as músicas pouco relacionadas ao ambiente, à grandiosidade do espaço comparado ao diminuto tamanho de alguém qualquer, fiquei buscando meu momento de meditação, meu momento de digestão de tantas coisas que até agora não sei explicar. E talvez essa condição tão fatigante de busca pelo sentido me faça, mesmo hoje, ter pouco a dizer e fotos pouco coerentes a mostrar.

Olhando agora, as imagens me parecem desconexas e não sei bem o porquê. É como se cada uma tivesse me mostrando um detalhe importante de toda essa viagem – que ainda nem terminou, que mal chegou à sua metade.
Fugindo um pouco dos (des)caminhos dos meus pensamentos, descrevo assim Fátima: uma cidade que não sei quem são os moradores, pois entre a rodoviária encardida e o (S)santuário imensamente magnífico, só vi as reformas nas ruas e calçadas, e as infinitas lojas e imagens. Também vi hotéis e restaurantes, e por conseguinte seus fregueses. E caminhando calmamente de repente, como num leve tropeço, se entra no (S)santuário. Daí não acho que posso descrever, porque como todo e qualquer monumento ou cidade ou pessoa, corro o risco de falar algo que não é. Deixo para as imagens, então, esse trabalho fatídico de descrição.

Tentei escrever diversas coisas engrandecedoras para completar o post e como tenho um pouco mais o que fazer, vou conectar as ideias dispersas – veremos o que sairá: hoje é bom lembrar que, naquele momento, pela primeira vez, desde que eu havia desembarcado do avião, estava sozinho. Apenas eu, meus pensamentos, meus desejos, meu profundo silêncio.
As horas no autocarro, lendo um livro qualquer ou um guia de viagem ou um jogo de paciência ou as imagens rápidas e rurais do outro lado da janela, tudo inédito, sob o sol quente e forte, de um final de verão, de outubro. Claro que é um exagero dizer que uma viagem de menos de um dia é uma grande experiência sozinho, e acho que eu próprio não conseguiria entender se não tivesse vivido em tamanha proporção aquele sentimento (na realidade a oposição total).

O que eu quero dizer com tudo isso, o que realmente quero registrar, é que a grande lição do dia foi identificar dois tempos dessa experiência das relações em um intercâmbio: conhecer novas pessoas, estabelecer novas amizades, criar vínculos com pessoas que normalmente você não teria acesso e ficar junto, de um lado, e usufruir da solidão, do silêncio e do auto-conhecimento. 
E essa foi a experiência de, um dia, pegar a mochila, o ipod e partir com a solidão no bolso para Fátima, completamente cheio de silêncio para uma peregrinação de um dia.
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#3 onze

Vou cortar um pouco a ordem cronológica das coisas para falar algo que me parece muito importante dizer. Estava pensando em falar sobre vários temas, incluindo o “viajar” em si, mas eis que na vida nem sempre (ou quase nunca) as coisas acontecem de um modo muito lógico e cronológico, portanto, vamos ao que interessa. Vamos à ação!

a hora primeira, o chapéu

Não um dia, um fim de semana, uma semana ou quinze dias, mas sim onze horas: por quase exatas onze horas eu permaneci em Madri, a cidade que mais quase não-visitei durante a minha estadia europeia. Explico: tanto na vinda, como na volta, fiz e farei conexões intermináveis em nesta cidade e, por razões financeiras, já havia desistido de ir conhecer a capital espanhola. Mas eis que o destino e uma viagem louca (para Sevilha) me colocaram de frente com a possibilidade de ter algumas horas lá.

a hora segunda, a caminhada

E como decidir o que fazer numa cidade tão grande em tão pouco tempo? Passei da pergunta à resposta em realmente pouco tempo e então estava eu saindo da estação Atocha para as minhas duas únicas reais razões de visita: o Museo del Prado e o Museo Reina Sofia. O que eu quero dizer é que, ao pensar no que faria por lá, automaticamente me lembrei do porquê do meu desejo de conhecer essa cidade (que eram justamente ir a estes museus para, mais especificamente, ter acesso a duas telas – Guernica, do Picasso, e As meninas, do Velázquez).

a hora terceira, a cabeça
a hora quarta, a rainha

Foi exatamente assim, nesses dois lugares, matando meu desejo, que passei a maior parte das minhas horas em Madri (juntando almoço, caminhada, pequenas paradas para contemplar a feiura da cidade etc). Sei que tanta coisa faltou para ver, visitar, respirar, conhecer, andar, tocar, experimentar, mas se me perguntam se me arrependi das minhas escolhas, a resposta é fácil: não! (Mesmo porque, cá entre nós, a minha primeira impressão da cidade não foi nem de perto boa).

a hora quinta, à espera
a hora sexta, o templo
a hora sétima, ela e ele

Na realidade não há muito o que dizer, pois além de ser quase impossível descrever estes dois museus, o tamanho da minha alegria também é indescritível. Tanto que na realidade o que mais me motivou a escrever um pouco mais sobre essas incríveis onze horas, foi para registrar de leve as coisas que me passaram à cabeça. Ou seja, Madri me pareceu uma cidade meio estranha e pouco convidativa; Guernica e o Museo Reina Sofia não me surpreenderam tanto quanto eu imaginava; ainda bem que há As Meninas, Velázquez e as Pinturas Negras, do Goya, para me encantar de um modo inexplicável.

a hora oitava, a placa

Resumo e retomada: foram onze horas de muita arte, algum tédio, algumas frustrações, tempo feio mas algumas enormes boas razões para voltar lá. Quem sabe um dia.

a hora nona, o jardim
a hora décima, a leitura
a hora décima primeira, salida